UFC e a arte de se construir carreiras

Thomas Almeida ainda não sabe o que é perder uma luta de MMA - Diego Ribas

Thomas Almeida ainda não sabe o que é perder uma luta de MMA – Diego Ribas

Aqueles que pouco acompanham ou aqueles que muito acompanham. Aqueles que são fanáticos ou aqueles que viram uma ou outra luta do Anderson Silva. Ou ainda aqueles que bradam acompanhar MMA desde os “tempos de fita cassete” ou os “modinhas”. Não importa em que perfil você se encaixa, muito provavelmente você já ouviu pessoas dizerem que a luta x ou y foi armada, certo?

Ok, aqui me resta acabar logo com esse assunto. Luta profissional armada não existe. Eventos grandes de MMA não colocam lutadores para lutar com alguma pré-orientação para que ele deliberadamente perca o duelo. Ao menos isso nunca foi comprovado. Nunca houve um escândalo como o que Nelsinho Piquet protagonizou na Fórmula-1 ou o que fez a Juventus de Turin, time de futebol da Itália, ser rebaixada no campeonato nacional. Isso – até que se prove ao contrário – não existe no MMA.

Agora, é preciso entender que o UFC (assim como qualquer outro evento de MMA, estou apenas usando o mais famoso como exemplo) é um torneio que precisa de grandes nomes para sobreviver. E, para se ter esses grandes nomes, às vezes é possível – e preciso – “direcionar” certas carreiras e ajudar a construir a imagem de lutadores com potencial. Vamos a exemplos práticos.

Thomas Almeida, peso-galo (61 kg) do UFC, sempre foi tratado pela imprensa brasileira como um grande – e talvez um dos poucos – talento surgido recentemente em solo nacional. Ele chegou ao torneio com 23 anos, invicto e com grande expectativa. Em sua estreia, pegou Tim Gorman (que vinha de derrota) e venceu por pontos. Foi uma luta emocionante, mas que terminou com vitória brasuca e prêmio de melhor luta da noite. Possivelmente, se não houvesse a pressão da primeira luta, Thominhas poderia ter nocauteado o adversário.

Depois disso, o atleta enfrentou dois bons e experientes lutadores – Yves Jabouin e Brad Pickett -, mas que já não vivem o melhor de suas carreiras. Excelentes testes para o poder de fogo do brasileiro e ele não desapontou. Anotou dois nocautes com direito a prêmio por performance da noite. Após a luta com o britânico, empolgado pela atuação, Thominhas revelou que queria dar um passo a frente. Ele chegou a aceitar publicamente o desafio de Jhonny Eduardo (9º do ranking). Pronto! Barbada para o Ultimate casar o duelo, certo? Errado. Thomas Almeida, agora com 24 anos, possui 19 lutas e 19 vitórias na carreira, se apresentou apenas três vezes no maior evento de MMA do mundo, mas ainda mostra buracos em seu jogo… É preciso ter calma com o garoto e não jogá-lo a um experientíssimo atleta de 37 anos, especialista em muay thai e jiu-jitsu e que poderia ser uma péssima luta para ele.

Ao invés disso, o brasileiro ganhou um “prêmio”. O paulista lutará em casa, no dia 7 de novembro, contra Anthony Birchak. O americano é um atleta que não está ranqueado entre os 15 melhores da divisão e tem uma vitória e uma derrota na organização – e possui como único triunfo expressivo a sua última luta contra Joe Soto, que também já não é nenhum menino. É como se Dana White falasse a Thominhas: “Calma, menino. Tome um ar, aprenda mais sobre essa brincadeira chamada UFC e, eu te prometo, sua hora vai chegar”.

Somado a isso, Thomas Almeida terá maior exposição em solo paulista, passará a ter sua imagem cada vez mais trabalhada pelo Ultimate no Brasil (isso já fica claro) e, quando finalmente chegar a uma disputa de cinturão, muitos já saberão quem é aquele rapaz magrinho que bate pesado. Ao menos esse é o pensamento de um torneio que, corretamente, busca valorizar o produto (no caso, o lutador) que tem em mãos e que acredita ter grande valor.

A mesma receita

Cuidado semelhante foi dado a Conor McGregor. O irlandês caminhou como uma peça de xadrez em um tabuleiro pulando de quadrado em quadrado com muito cuidado e bom planejamento por parte do Ultimate para, enfim, chegar ao cinturão interino dos penas (66 kg). Obviamente, o falastrão ajudou demais sua escalada com boas atuações, muita autopromoção e uma boa dose de fanfarronice, mas a construção de sua imagem e trajetória por parte do torneio foi brilhante.

Paige VanZant não foge à essa regra. A atleta da Team Alpha Male surgiu como apenas uma loirinha bonitinha que, vejam vocês, até sabe lutar. Com animação e fôlego dignos da cheerleader que já foi, a americana foi conquistando seu espaço e evoluindo com lutas diante de atletas de menores expressão variando com lutadoras mais experientes, mas sem estarem em seu auge (no caso, Felice Herrig). Uma receita bem parecida com a que confeccionada à carreira de Thomas Almeida. Se eles serão campeões um dia não se sabe, mas o caminho para as novas estrelas do UFC está bem trilhado.

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