Glover Teixeira aprova trash talk para atletas iniciantes: “Tem que ter personalidade”

Glover Teixeira encara Alexander Gustafsson em maio, na Suécia – Diego Ribas

Número dois do ranking oficial dos meio-pesados (93 kg) do UFC, Glover Teixeira tem compromisso marcado contra Alexander Gustafsson, dono da primeira posição na lista, em duelo que, auxiliado pela aposentadoria de Anthony Johnson e pela suspensão de Jon Jones, deve garantir ao vencedor proximidade do cinturão da categoria. Cenário este que só não é melhor por conta da postura pacata dos dois atletas.

Veteranos e renomados, tanto Glover como o rival sueco não costumam utilizar provocações e polêmicas para venderem suas lutas e inflarem suas bolsas. No entanto, a prática do trash talk se provou eficiente e capaz de cortar caminhos rumo ao sucesso nos maiores eventos de MMA do mundo, o que fez o brasileiro refletir que, se fosse mais jovem, poderia aumentar sua exposição com uma postura mais ácida.

“Agora já está tarde para isso [fazer trash talk]. Já lutei a vida inteira sendo assim, sou o que eu sou. Nunca me preocupei com isso. Os caras falam de mim e eu nem sei quem falou e o que falou. As pessoas chegam: ‘Você viu o que o Cormier falou de você? Viu o que fulano falou?’. Nem vejo, nem dou muita ideia e nem dou palpite também. Mas, eu acho que se eu tivesse feito isso quando entrei no UFC – falado um monte de m*** – talvez eu teria ganho mais dinheiro, não sei. Mas agora… já cheguei até aqui, estou com 37 anos e quem sabe tenho mais uns três para lutar. Não vou fazer isso”, analisou durante conversa exclusiva com a reportagem da Ag. Fight.

Embora tal prática não seja difundida entre lutadores brasileiros e não agrade aos fãs, Glover, por já morar nos EUA há anos, parece mais habituado com esse estilo de promoção. Garantindo que não se incomoda com os famosos ‘falastrões’, o mineiro, no entanto, afirma que não é qualquer um pode sair falando e provocando quando bem entender. Afinal, os resultados é que irão garantir o futuro de cada careira no octógono.

“Acho que quando o cara faz isso ele tem que ter essa personalidade também. Não sou esse tipo de pessoa. Prefiro do jeito que está agora. Mas, agora não dá mais para começar a fazer trash talking. Agora, para o cara que está começando, acho uma boa. Isso se ele lutar bem também né, claro. Não adianta ser um lutador ruim e falar m***, aí vai passar vergonha [risos]. Tem que ser meio como o [Conor] McGregor mesmo, ele fala, mas ele vai lá e faz. Perdeu para o Nate Diaz, mas voltou e fez. Tem muitos que tentam e não conseguem. O Chael Sonnen foi um que ganhou várias oportunidades de disputar o cinturão, mas não adiantou muito. Sinceramente, prefiro ganhar menos dinheiro e não passar vergonha. Os caras passam muita vergonha”, narrou de forma contundente, embora sempre com a fala pausada e tranquia que lhe é característica.

Enquanto se prepara para o duelo contra Gustafsson na Suécia, cabe a Glover também analisar sua categoria. Embora garanta que é impossível prever os próximos passos de cada atleta, o veterano de 37 anos vê no topo de sua categoria um certo reflexo do que é o MMA atualmente. Afinal, os últimos meses ficaram marcados por alguns campeões preferindo enfrentar atletas que, ao menos na teoria, representam menos perigo. E, ao menos em sua visão, é disso que se trata a rivalidade entre Daniel Cormier, dono do cinturão, e o inglês Jimi Manuwa, quarto colocado do ranking.

“Quem disputa o cinturão é quem vende mais. O ranking, hoje em dia, é o de menos. Eles estão conversando sobre o Jimi Manuwa disputar o cinturão. É claro que o [Daniel] Cormier quer essa luta. Ele está falando do Jimi Manuwa porque ele sabe que o Jimi Manuwa será uma luta fácil para ele. O Jimi Manuwa não tem defesa de queda, ele perde todas as lutas no chão. Ele é bom, perigoso, mas não defende bem queda. E, para o Cormier, a luta é excelente. Então, o Cormier vai querer essa luta. E o cara também foi lá e falou uma m*** no Twitter e no Instagram, então eles ficam nessa. Hoje em dia está assim. O cara que vai lá, conversa e vende, e é isso aí. O meu negócio é lutar, ganhar e esperar a próxima”, comparou, antes de, em análise própria, questionar se a aposentadoria de Anthony Johnson, último atleta a vencê-lo, será permanente.

“Não acho que o Anthony Johnson vai se aposentar. Ele pode ter falado ali na derrota e deve ter alguma oferta boa de trabalho, mas que não é nada comparado com a luta em termos financeiros. Deve ser uma boa oferta que vai atrapalhar ele para se manter focado. Porque lutador não tem como ter dois trabalhos. Você tem que estar sempre focado na luta. Então, ele deve ter pego isso por um momento, perdeu aquela luta, então vai pensar ainda. Mas, eu tenho quase certeza que ele vai voltar e talvez esse ano ainda. Vão oferecer alguma coisa a ele. O Anthony Johnson está lutando bem e é um cara que faz lutas emocionantes. Ele é um nocauteador. Não tem um chão afiado, mas, se a mão dele pegar, qualquer um cai”, encerrou.

O objetivo de todo lutador de MMA é um dia conquistar um cinturão e se consagrar como um dos campeões do esporte. No entanto, muitos atletas passam suas carreiras inteiras sem ter a oportunidade de disputar um título em um torneio de grande porte - como o UFC, Bellator, Pride, Strikeforce, WEC e Invicta FC - ou acabam desperdiçando a chance quando o title-shot aparece. Confira dez veteranos que bateram na trave e nunca conquistaram um cinturão nos maiores torneios de artes marciais mistas do planeta - Divulgação/UFC
Aos 39 anos de idade, Demian Maia vive o melhor momento da carreira e flerta com a possibilidade de disputar o cinturão dos meio-médios (77 kg) do UFC. Em 2010, o especialista na arte suave enfrentou Anderson Silva pelo título dos médios (84 kg) mas acabou superado por pontos - Felipe Castello Branco
Medalhista de prata em luta livre nos Jogos Olímpicos de 2000 realizados na Austrália, Yoel Romero está invicto desde que foi contratado pelo UFC em 2013, tendo vencido todos os oito combates que disputou. Atualmente, o cubano de 39 anos de idade espera a sua chance de disputar o título dos pesos-médios (84 kg) do Ultimate - Diego Ribas
Irmão gêmeo da lenda do MMA Rodrigo 'Minotauro', Rogério 'Minotouro' está no esporte há mais de 15 anos e nunca teve a oportunidade de disputar um cinturão. Aos 40 anos de idade, meio-pesado (93 kg) do UFC não vive boa fase e perdeu três das últimas quatro lutas que disputou - Felipe Castello Branco
Aos 43 anos de idade, Mark Hunt é o lutador mais velho a figurar em um ranking do UFC atualmente. Em 2006, o neozelandês disputou o cinturão dos pesos-pesados do Pride com Fedor Emelianenko, mas acabou finalizado pelo russo. No UFC, o ex-campeão do K-1 enfrentou Fabrício Werdum pelo título interino dos pesados e foi nocauteado pelo brasileiro - Diego Ribas
Exímio lutador de boxe, Glover Teixeira chegou a acumular 20 vitórias consecutivas antes de encarar Jon Jones pelo cinturão dos meio-pesados (93 kg) do UFC em 2014. Derrotado pelo americano, o mineiro de 37 anos de idade busca se reafirmar na categoria para tentar disputar o título novamente - Diego Ribas
Aos 37 anos de idade, Antônio 'Pezão' vive a pior fase da carreira com sete derrotas nas suas últimas nove lutas. Contudo, o veterano já esteve em alta quando disputou o cinturão dos pesados do UFC contra Cain Velasquez em 2013. O brasileiro foi nocauteado pelo americano - Felipe Castello Branco
Medalhista de prata nos Jogos de Atenas (Grécia) em 2004 na luta olímpica, Sara McMann disputou o cinturão dos pesos-galos (61 kg) do UFC em 2014, mas foi nocauteada por Ronda Rousey. Aos 36 anos de idade, a americana vive boa fase e venceu as últimas três lutas que disputou - Diego Ribas
Ex-campeão mundial de jiu-jitsu, Gabriel 'Napão' ganhou a chance de disputar o cinturão dos pesos-pesados do UFC após nocautear de forma avassaladora Mirko 'Cro Cop' em 2007. Contudo, o brasileiro foi superado por Randy Couture e não teve mais oportunidade de disputar um título. Aos 37 anos de idade, o especialista na arte suave vive péssima fase e venceu apenas uma das últimas cinco lutas que disputou - Diego Ribas
Ex-jogador de futebol americano na NFL, Matt Mitrione começou a disputar MMA em 2009 e, apesar de nunca ter disputado um título na carreira, o lutador terá pela frente o maior desafio da carreira. Aos 38 anos de idade, o veterano enfrentará ninguém menos que Fedor Emelianenko em junho próximo - Divulgação
Lutador de MMA profissional desde 2006, Tim Boetsch nunca teve a oportunidade de disputar um título em sua carreira. Aos 36 anos de idade, o americano foi finalizado por Ronaldo 'Jacaré' em fevereiro passado e, atualmente, ocupa a 15ª posição no ranking dos pesos-médios (84 kg) do UFC - Divulgação

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