Brasileiro relembra drama e garante ter pensado parar pouco antes de entrar no UFC

Junior Albini nocauteou Timothy Johnson no UFC On FOX 25 – Reprodução/Facebook

Se destacar no cenário nacional de MMA, ser contratado pelo UFC e de quebra estrear com o pé direito na nova organização. Este é o sonho máximo de qualquer postulante a atleta profissional de artes marciais mistas no Brasil, e Júnior Albini, mais conhecido pelo apelido ‘Baby’, pode dizer que conquistou tal objetivo. No entanto, a trajetória até a nata do esporte não foi fácil, e, por isso, o competidor natural de Paranaguá (PR) não se desfaz dos percalços que por muito pouco não o fizeram desistir do objetivo de se destacar na modalidade e ter a condição de proporcionar uma vida melhor à sua ainda pequena família. 

A realidade precária que os competidores de MMA enfrentam fora dos grandes eventos foi um dos principais agravantes, pois, como ele próprio relembrou em entrevista exclusiva à reportagem da Ag. Fight, suas noves lutas anteriores à estreia no UFC não lhe proporcionaram “nem um centavo”. Tal cenário induziu Baby a fazer certos questionamentos sobre o quão válido era persistir no sonho, porque, simultaneamente aos problemas financeiros, Júnior não podia acompanhar o crescimento de sua filha, que atualmente tem dois anos de idade. Mas como em um roteiro digno de Hollywood, o paranaense provou que persistir ao máximo pode valer a pena. 

“Foi tudo no sacrifício, e eu me dizia ‘mais um ano’, pedia [dinheiro] emprestado e fazia bico acreditando no sonho”, relatou pouco antes de narrar que, quando trabalhava como garçom aos finais de semana, recebia cerca de R$ 60 por noite. “Estava muito mal, contei com ajuda da minha mãe até para comer. Reduzimos muita coisa para poder continuar vivendo no sonho. Minha esposa sempre me apoiou e acreditou que eu chegaria lá. [Foram] Quatro anos assim, fui cortando o básico para poder viver com a condições mínimas que me permitissem comer bem”, revelou, garantindo que chegou a pensar em largar o esporte.

“Até o momento que minha esposa ficou grávida, a situação ficou mais difícil. Mas aí quando ela começou a andar e ficou com dez meses, foi aí que ficou mais difícil. Esse último ano foi o mais difícil e pensei em parar para dar uma condição para ela pois temia estar prejudicando a infância dela e algo que ela poderia ter. Esse último ano foi mais difícil, quando ela começou a falar com um ano e quatro meses e eu pensava em parar quase todo dia. […] Agora com essa parte financeira eu posso focar no treino. […] Tentarei manter o mesmo padrão de antes, né? Mas com mais qualidade de vida e tranquilidade, tanto para minha filha e minha esposa”, completou o jovem peso-pesado de 26 anos. 

A boa fase se concretizou após sua luta de estreia no UFC Long Island (EUA), quando ele nocauteou Timothy Johnson ainda no primeiro round. Com a vitória arrasadora sobre o norte-americano, Albini recebeu a notícia que precisava para se estabilizar financeiramente: a de que, além da bolsa pela vitória, ele conquistou uma premiação individual por performance – feito que lhe conferiu 50 mil dólares (cerca de R$160 mil) a mais em sua conta. Cenário completamente oposto ao que antecedeu a semana da luta, quando ele, por falta de dinheiro, teve que decidir se comprava um presente para sua filha ou gastava seu dinheiro todo com alimentação. 

“Na verdade, a boneca eu comprei com o dinheiro da comida que o UFC dá para gastarmos com os mantimentos da semana. Fui sair para comprar as coisas e acabei vendo as bonecas, porque aqui no Brasil é muito caro, e comprei para minha filha com esse dinheiro”, relembrou Albini sem qualquer arrependimento. “Quero dar o melhor para elas, mas quero manter sem exageros. Procurar manter um padrão legal, mas economizando o máximo que puder. Sou novo e acredito que posso dar alguns saltos, fazer algum intercambio fora. Quero não mexer em uma parte do dinheiro, quero guardar”, ponderou, garantindo total consciência em relação à instabilidade da vida de um atleta profissional. 

A preocupação com o futuro financeiro de sua família é natural para alguém que sabe o que é passar por dificuldades, e justamente por isso o peso-pesado prefere manter a calma e consolidar seu nome na organização aos poucos. Nem mesmo a ascensão meteórica na divisão dos pesados – que, com apenas uma luta, já o coloca entre os 15 melhores do ranking do UFC – é capaz de fazer com que o brasileiro perca o foco e deixe de manter os pés no chão. 

“Corto peso para bater 120 kg, mas quero mudar isso aí e melhorar o shape, ganhar massa magra e perder mais gordura, mas não quero perder peso não. Isso faz diferença na velocidade e tamanho. Mesmo pesadão não perco velocidade, então vou explorar isso aí. […] Acredito que apesar de estar em 13°, preciso de mais experiências no octógono para me sentir melhor. Não quero dar um passo maior do que a perna, quero fazer algumas lutas antes de pegar os caras lá de cima”, concluiu a promessa brasileira da divisão dos pesados.

A prática que envolve drásticos cortes de peso por parte dos atletas nos dias que antecedem os eventos de MMA ainda é uma constante no esporte, mas aos poucos alguns competidores dão amostras de que esse sacrifício nem sempre vale a pena, e Rafael 'Dos Anjos' é um exemplo claro disso. Afinal, após perder duas lutas seguidas entre os leves (70 kg), ele optou por subir de categoria e já figura entre os 10 melhores da divisão dos meio-médios (77 kg). Por isso, a Ag. Fight te mostra outros nove atletas que se deram bem após mudarem de ares - Florian Sadler
Charles 'Do Bronx' alternou vitórias e derrotas na divisão dos penas do UFC (66 kg) nos últimos anos. No entanto, após não bater o peso em seu antepenúltimo combate, o brasileiro foi intimado a subir de divisão. E ao contrário do que se poderia imaginar, a mudança foi um sucesso e ele finalizou Will Brooks, promessa que estreava no Ultimate, ainda no assalto inicial - Jéssica Portassio
Natural da categoria dos leves (70 kg), Alex 'Caubói' Oliveira até perdeu em sua estreia entre os meio-médios (77 kg), mas desde então acumula cinco lutas sem perder. E tal retrospecto faz com que o brasileiro ocupe a 14° posição do ranking da divisão - Marcel Alcântara
Donald Cerrone, também conhecido pelo apelido 'Cowboy', conseguiu manter bom nível de competitividade desde que subiu para os meio-médios (77 kg). Nem mesmo a derrota para o ex-campeão Robbie Lawler minimiza o seu sucesso, já que ele ainda ocupa a 6° colocação no ranking da categoria - Diego Ribas
Desde que subiu para a divisão dos galos (61 kg), Lineker se manteve em alto nível e chegou a alcançar a marca de quatro vitórias consecutivas. Por isso, ele é o atual 5° colocado do ranking da divisão - Diego Ribas
Campeão do TUF (reality show do UFC), John Dodson construiu seu nome na organização competindo entre os moscas (57 kg). No entanto, após perder duas vezes na disputa pelo cinturão, ele subiu para os galos (61 kg) e já acumula duas vitórias e apenas uma derrota - Divulgação UFC
Kelvin Gastelum era um dos atletas mais promissores da divisão dos meio-médios (77 kg), mas seus problemas com a balança o guiaram rumo à divisão dos médios (84 kg). E o resultado não poderia ter sido melhor: apenas uma derrota em seus últimos quatro combates - Tobias Bunnenberger
Oriundo da divisão dos pesados, Daniel Cormier se credenciou como um dos meio-pesados (93 kg) mais dominantes da história do UFC. Desde que desceu para a nova divisão, ele foi campeão, competiu oito vezes e perdeu apenas em duas oportunidades, ambas para Jon Jones - Diego Ribas
Sensação dos médios (84 kg) do UFC, Robert Whittaker é originário da categoria dos meio-médios (77 kg). No entanto, foi após subir de divisão que o atleta atingiu seu grande objetivo na organização: conquistar o título do Ultimate, ainda que este seja interino - Diego Ribas
Único campeão peso-mosca (57 kg) da história do UFC, Demetrious Johnson é o atual recordista de defesas de cinturão da companhia - ao lado de Anderson Silva. Exceção neste lista, é difícil associá-lo à categoria dos galos (61 kg), divisão em que começou sua trajetória no Ultimate e onde não foi campeão - Diego Ribas

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